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Todas as etapas do processo de inovação podem se beneficiar da gestão do conhecimento. Mas como aproveitá-las de forma efetiva e gerar resultados para a inovação e para o negócio?

O processo de inovação é essencialmente um processo de criação e mobilização de conhecimentos: em suas diversas etapas, busca formular as perguntas certas e desenvolver os conhecimentos e ideias capazes de fornecer as melhores respostas – tecnicamente mais adequadas ou criativamente mais promissoras. Transformando desafios e oportunidades em soluções imaginadas, e o imaginado em conhecido, o conhecimento é a própria matéria-prima do processo de inovação. E a gestão do conhecimento está na essência, e não no suporte, das dinâmicas inovadoras.

Essa é a ideia que discutimos no post anterior [parte 1]: a incorporação da gestão do conhecimento amplia enormemente o potencial, a qualidade e a efetividade do processo de inovação.

Mas como essa combinação pode gerar valor? Como nossa visão da gestão da inovação pode ser alterada se consideramos o conhecimento como um elemento essencial do processo? Como fazer da gestão da inovação um processo mais inteligente e efetivo, que aproveite melhor os conhecimentos disponíveis dentro e fora da organização e, ao mesmo tempo, gere novos conhecimentos para a organização e para outros projetos de forma estruturada?

As oportunidades estão espalhadas por todas as etapas do ciclo de inovação – e são tantas que você vai se perguntar por que sua organização ainda não incorporou a gestão do conhecimento ao processo de inovação.

 

Reenquadrando o processo de inovação

A maioria dos estudiosos e praticantes concorda que a inovação percorre um processo com estágios mais ou menos claros. (A literatura sobre o tema é vasta, para uma análise mais completa consulte esta revisão bibliográfica em português, ou esta, em inglês.)

A descrição do processo pode variar bastante, mas algumas etapas estão presentes em praticamente todos os modelos, ainda que com nomes distintos:

  • Geração de ideias
  • Definição do conceito
  • Desenvolvimento da solução
  • Prototipagem e testes
  • Lançamento e comercialização

Porém poucos autores abordam explicitamente três aspectos que podem ser considerados fundamentais para a gestão da inovação efetiva se consideramos o conhecimento como um elemento relevante no processo:

  • Identificação de oportunidades – ainda que o senso comum (e boa parte da literatura) trate a “ideia” como um elemento quase mágico que deflagra o processo de inovação, toda ideia busca atender a uma demanda ou oportunidade previamente existente. Assim, podemos considerar a busca e identificação de uma oportunidade como o “marco zero” do processo de inovação, anterior e determinante para a geração de ideias e de inovação. (Alguns dos autores que também situam o início do processo de inovação antes da geração de ideias: Robert Cooper, 1986; e Tidd & Bessant, 2015.)
  • Aprendizagem e “reinovação” – a maioria dos autores e empresas considera concluído o processo de inovação com o lançamento do produto ou serviço inovador. A avaliação dos resultados e o processo de aprendizagem gerado com a introdução da inovação no mercado, quando abordados, nem sempre são considerados parte do processo inovador. Essa aprendizagem não só deve ser considerada parte essencial do processo, mas também uma fonte de oportunidades para iniciativas inovadoras, sejam elas incrementos à mesma solução, seja novas soluções que vão além do estágio até então atingido (o que Tidd & Bessant chamam de “reinovação”).
  • Inovação como ciclo continuado – a visão do processo de inovação como algo linear – que começa com uma ideia e termina com o lançamento da solução no mercado – está com os dias contados. Com a inovação tratada como um imperativo para as empresas, cada vez mais o processo de inovação é visto como uma função importante e permanente do negócio, e que vai além do ciclo de vida dos produtos ou soluções para abarcar a aprendizagem. A inovação como ciclo continuado preocupa-se em gerar novos conhecimentos com cada ciclo de inovação e realimentar o processo, identificando novas oportunidades e inovações a partir do conhecimento gerado.

 

O processo de inovação atualizado

Assim, um modelo de referência para o processo de inovação que incorpore o conhecimento como fator determinante pode considerar estas sete etapas, cada uma delas com desafios de conhecimento específicos:

  1. Identificação de oportunidades – identificar ativamente lacunas ou desafios, ameaças ou oportunidades, que possam ser atendidos de forma vantajosa por soluções diferenciadas ou inovadoras. “De forma vantajosa” pode ser entendido de formas diferentes em diferentes setores e contextos, mas sempre deve se referir a benefícios e resultados adicionais em relação à situação a ser transformada.
  2. Geração de ideias – combinação de imaginação e conhecimento para formular possíveis soluções criativas, diferenciadas e originais, capazes de desencadear transformações (incrementais, significativas ou radicais) para superar a lacuna ou desafio enfocado.
  3. Definição do conceito – trabalho de análise, descrição e convergência para definir e descrever a solução imaginada do ponto de vista técnico, mercadológico e financeiro, de forma que possa ser materializada e gerar o valor esperado. Uma definição preliminar é importante nesta fase, mas a exigência de um business plan ou venture plan completo e detalhado neste momento pode ser perigosamente contraproducente.
  4. Desenvolvimento da solução – criação e aplicação de conhecimento técnico, mercadológico e financeiro para materializar e aprimorar a solução imaginada. Aqui sim, um business e/ou venture plan mais completo é indispensável, assim como projetos e desenhos detalhados (para produtos) ou roteiros e mapas (para serviços).
  5. Prototipagem e testes – desenvolvimento de uma versão simplificada da solução, seja ela um produto ou um serviço, para submetê-la a situações próximas à realidade, visando gerar o máximo possível de aprendizado e aprimoramentos antes da solução ser lançada em larga escala.
  6. Implantação / Lançamento – é a fase em que se aplica todo o conhecimento acumulado para produzir e distribuir a solução, produto ou serviço, gerando e capturando valor.
  7. Aprendizagem e reinovação – esta é uma das fases menos estruturadas nas organizações: envolve conectar as informações e conhecimentos gerados ao longo de todo o ciclo de inovação com as novas informações e conhecimentos que emergem do lançamento e adoção disseminada da solução gerada. Permite entender em que grau a solução comercializada está atendendo à oportunidade identificada originalmente, e se emergem novas oportunidades a serem atendidas por aprimoramentos na solução original ou criação de novas soluções, realimentando o ciclo de inovação e potencialmente gerando novos insights estratégicos.

 

Processo de Inovação Atualizado 2017
(Clique na imagem para ampliar)

 

 

Gerenciando múltiplos projetos de inovação

Esse ciclo de inovação pode ser conduzido com diversos projetos simultâneos, exigindo não só a gestão do ciclo de inovação de cada um deles mas também a gestão do portfólio de projetos inovadores. A questão central da gestão de portfólio de projetos em inovação é balancear risco e retorno, distribuindo estrategicamente o foco e energia da organização entre projetos mais incrementais ou mais disruptivos, buscando gerar inovações com potencial resultado tanto no curto quanto no longo prazo.

A gestão de portfólio em inovação é um tema à parte, que já conta com vasta literatura especializada (veja Cooper et al., 2001; e este excelente artigo de Ohr e McFarthing). Também envolve uma série de processos de conhecimento e abre oportunidades de aprendizagem entre projetos e sobre o conjunto de projetos, envolvendo conhecimentos de natureza mais estratégica, um dos temas que vamos explorar no próximo post.

 

Ligando os pontos

Abordar o processo de inovação sob esse novo prisma – como um processo cíclico e continuado, orientado por oportunidades e baseado em conhecimento – possibilita promover um salto na capacidade inovadora da organização e, ao mesmo tempo, gerar e explorar de forma mais efetiva os ativos de capital intelectual, que podem ser aplicados em novas estratégias e em projetos inovadores.

Paradoxalmente, são raros os autores que exploram as práticas de gestão do conhecimento aplicadas ou incorporadas ao processo de gestão da inovação. Essas práticas são o que vamos discutir no próximo post [parte 3].

 

[Clique aqui para ler a <<parte 1 deste post, e aqui para ler a >>parte 3.]

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